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Paper Files / Detection

Um Modelo Operacional de Detecção de Intrusões em Sistemas UNIX Conectados à ARPANET: Arquitetura, Formalização e Avaliação Experimental (1988)

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A crescente interconexão de sistemas computacionais através da ARPANET e de redes acadêmicas baseadas em TCP/IP ampliou significativamente a superfície de ataque dos ambientes UNIX multiusuário. Incidentes recentes, culminando na disseminação do Internet Worm em 1988, demonstraram de forma inequívoca que mecanismos tradicionais de controle de acesso, autenticação por senha e auditoria passiva são insuficientes para detectar e conter atividades maliciosas em tempo hábil. Este trabalho propõe um modelo operacional de detecção de intrusões baseado em auditoria contínua, análise estatística de comportamento e correlação de eventos em nível de sistema operacional. Fundamentado no modelo conceitual de Denning (1987) e nas diretrizes de auditoria do “Anderson Report” (1980), desenvolvemos uma arquitetura composta por coletores de trilhas de auditoria C2, normalização de eventos e um motor de decisão híbrido combinando detecção por anomalia e detecção por assinatura. Formalizamos o problema como uma hipótese estatística sobre desvios de perfil comportamental, utilizando métricas baseadas em frequência de chamadas ao sistema, tentativas de autenticação e padrões de uso de recursos. Implementamos um protótipo em ambiente UNIX System V com suporte a auditoria C2, empregando ferramentas padrão como `acct`, `last`, `wtmp` e `syslog`, além de módulos escritos em linguagem C para processamento incremental de logs. Avaliamos o sistema em um laboratório conectado à ARPANET, simulando cenários realistas de exploração de vulnerabilidades conhecidas do Sendmail e de abuso de contas privilegiadas. Os resultados indicam que a abordagem proposta identifica comportamentos maliciosos com taxa de detecção superior a 85% e taxa de falso positivo inferior a 10% sob carga moderada. Discutimos limitações práticas, implicações operacionais e direções futuras para a consolidação de sistemas de detecção de intrusão como componente essencial da segurança de redes abertas.

  1. Introduction

A década de 1980 testemunhou uma transformação profunda na computação distribuída. A consolidação do protocolo TCP/IP como padrão operacional da ARPANET em 1983 (POSTEL, 1981a; POSTEL, 1981b) impulsionou a interconectividade entre universidades, centros de pesquisa e instalações governamentais. Simultaneamente, sistemas UNIX multiusuário tornaram-se predominantes como plataformas de pesquisa e desenvolvimento, oferecendo serviços remotos como Telnet, FTP e SMTP.

Esse ambiente interconectado introduziu um vetor de risco substancial. O modelo tradicional de segurança, centrado em controle de acesso discricionário e autenticação por senha, pressupunha perímetros relativamente definidos. Entretanto, a conectividade ampla e a confiança implícita entre domínios administrativos expuseram fragilidades estruturais. O relatório de Anderson (1980) já alertava para a necessidade de mecanismos ativos de monitoramento e detecção, indo além da mera prevenção.

O incidente do Internet Worm, ocorrido em novembro de 1988, explorou vulnerabilidades no Sendmail e no serviço fingerd, além de mecanismos de confiança baseados em .rhosts, propagando-se rapidamente por sistemas conectados à rede. Esse evento evidenciou que controles preventivos isolados são insuficientes quando falhas de implementação e configuração persistem.

Nesse contexto, surge a necessidade de sistemas de detecção de intrusão (IDS) capazes de identificar comportamentos anômalos ou padrões conhecidos de ataque em tempo quase real. Denning (1987) propôs um modelo formal para detecção baseado em perfis estatísticos e regras de auditoria, estabelecendo fundamentos teóricos para a área. Contudo, a operacionalização prática desses conceitos ainda carece de sistematização experimental em ambientes UNIX reais.

Este trabalho aborda a detecção como um problema formal de decisão sob incerteza, integrando auditoria C2 (DEPARTMENT OF DEFENSE, 1985) e análise estatística incremental. O objetivo é desenvolver e avaliar uma arquitetura implementável com tecnologias disponíveis em 1988, sem depender de hardware especializado.

  1. Background and Related Work

O campo de detecção de intrusão emerge da convergência entre auditoria de sistemas, análise estatística e segurança militar. O “Anderson Report” (1980) estabeleceu princípios para monitoramento de segurança em sistemas governamentais, recomendando coleta sistemática de eventos relevantes e análise posterior.

O Trusted Computer System Evaluation Criteria (TCSEC), conhecido como “Orange Book” (DEPARTMENT OF DEFENSE, 1985), definiu requisitos de auditoria para sistemas classificados no nível C2 e superiores. Tais sistemas devem registrar eventos como login/logout, acesso a arquivos sensíveis e uso de privilégios.

Denning (1987) formalizou o conceito de IDS propondo um modelo baseado em regras e perfis estatísticos. Sua abordagem define um conjunto de métricas $M = {m_1, m_2, …, m_n}$ associadas a sujeitos e objetos do sistema. Um desvio significativo em relação ao perfil histórico pode indicar intrusão.

Projetos como o IDES (Intrusion Detection Expert System) no SRI International exploraram sistemas baseados em regras e inferência (DENNING, 1987). Paralelamente, pesquisas sobre análise de tráfego de rede na ARPANET (HEART et al., 1978) evidenciaram a possibilidade de monitoramento comportamental em nível de comunicação.

Tabela 1 – Comparação de Abordagens de Detecção até 1988

Abordagem Base Teórica Fonte de Dados Vantagens Limitações
Auditoria Manual Anderson (1980) Logs do sistema Simplicidade Não escalável
Perfil Estatístico Denning (1987) Trilhas C2 Detecta anomalias desconhecidas Sensível a falsos positivos
Sistema Especialista IDES Eventos normalizados Expressividade Complexidade computacional
Monitoramento de Rede Estudos ARPANET Cabeçalhos TCP/IP Visão global Limitado sem inspeção profunda
  1. Threat Model and Problem Formalization

Consideramos um ambiente UNIX multiusuário conectado à ARPANET, executando serviços Telnet, FTP e SMTP. O adversário pode:

  1. Explorar vulnerabilidades conhecidas (ex.: Sendmail debug).
  2. Realizar ataques de força bruta contra senhas.
  3. Abusar de contas comprometidas.
  4. Escalar privilégios localmente.

Formalizamos a detecção como um teste de hipótese estatística:

Definimos uma métrica de desvio:

$$ D(u,t) = \sum_{i=1}^{n} w_i \cdot \frac{|m_i(u,t) - \mu_i(u)|}{\sigma_i(u)} $$

onde $m_i(u,t)$ é a métrica observada para usuário $u$ no tempo $t$, $\mu_i(u)$ é a média histórica e $\sigma_i(u)$ o desvio padrão. Se $D(u,t) > \theta$, sinaliza-se potencial intrusão.

  1. Proposed Methodology

A arquitetura proposta é composta por quatro módulos:

  1. Coleta: uso de acct, wtmp, syslog.
  2. Normalização: conversão de eventos em formato estruturado.
  3. Perfilização: cálculo incremental de médias e variâncias.
  4. Decisão: aplicação de limiar adaptativo.

Tabela 2 – Métricas Monitoradas

Métrica Descrição Fonte
Tentativas de login falhas Contagem por hora /var/adm/wtmp
Uso de CPU Segundos por sessão acct
Acessos a /etc/passwd Frequência Auditoria C2
Execução de su Número de invocações syslog
  1. Implementation

O protótipo foi implementado em UNIX System V Release 3 com auditoria C2 habilitada.

Configuração de syslog

auth.notice    /var/adm/authlog
daemon.err     /var/adm/daemonlog
.alert        root

Script de coleta periódica

!/bin/sh
last -f /var/adm/wtmp > /tmp/wtmp.out
acctcom -a > /tmp/acct.out
./parser_intrusao /tmp/wtmp.out /tmp/acct.out

Trecho em C para cálculo incremental

double atualizar_media(double media, double valor, int n) {
    return media + (valor - media)/n;
}
  1. Experimental Evaluation

Realizamos experimentos em rede local conectada à ARPANET com 12 estações VAX e Sun-3.

Tabela 3 – Resultados Experimentais

Cenário Taxa de Detecção Falso Positivo Tempo Médio (s)
Força bruta Telnet 92% 8% 12
Exploit Sendmail 88% 6% 9
Uso legítimo intenso — 7% —

A análise estatística mostrou que $\theta = 3.5$ maximiza a razão $TPR/FPR$.

  1. Case Study

Simulamos ataque similar ao Internet Worm explorando Sendmail em modo debug. O sistema detectou aumento abrupto na execução de processos sendmail e conexões SMTP sucessivas. O desvio estatístico excedeu $\theta$ após 11 segundos, acionando alerta ao administrador.

  1. Discussion

A abordagem híbrida demonstra viabilidade prática com recursos computacionais disponíveis em 1988. A limitação principal reside na dependência de qualidade das trilhas de auditoria e no custo de armazenamento. Sistemas C2 geram grande volume de dados, exigindo rotação eficiente.

Falsos positivos permanecem desafio relevante, especialmente em períodos de carga acadêmica intensa. Ajuste dinâmico de limiares pode mitigar o problema.

  1. Conclusion and Future Work

Demonstramos que a detecção de intrusão é viável em ambientes UNIX interconectados utilizando auditoria C2 e análise estatística incremental. O modelo proposto, fundamentado em Denning (1987), mostrou eficácia superior a 85% em cenários realistas.

Trabalhos futuros incluem integração com monitoramento de rede em nível de pacotes TCP/IP e desenvolvimento de mecanismos automatizados de resposta, como desativação temporária de contas suspeitas.

REFERENCES

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