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Paper Files / Detection

Modelos Operacionais de Detecção de Intrusões em Sistemas de Tempo Compartilhado e Redes ARPANET (1980–1987)

DetectionPT

A crescente interconectividade entre sistemas de tempo compartilhado, redes acadêmicas e ambientes governamentais ao longo da década de 1980 transformou a superfície de ataque das infraestruturas computacionais. Incidentes envolvendo exploração de contas privilegiadas, abuso de mecanismos de acesso remoto e infiltrações transnacionais em redes conectadas à ARPANET evidenciaram a limitação dos mecanismos tradicionais de controle de acesso baseados exclusivamente em autenticação e autorização estática. Este artigo apresenta um estudo abrangente sobre detecção de intrusões conforme o estado da arte até 1987, fundamentado nos trabalhos de Anderson (1980), Denning (1987), Neumann e colaboradores no projeto IDES do SRI International, e nas diretrizes de auditoria do Orange Book (DoD, 1985). Propomos uma formalização matemática do problema de detecção baseada em perfis comportamentais e limiares estatísticos, integrando registros de auditoria de sistemas UNIX, VAX/VMS e mainframes IBM sob um modelo híbrido que combina detecção por assinatura e detecção por anomalia. Descrevemos a implementação de um protótipo operacional em ambiente UNIX com uso extensivo de syslog, registros de login, contabilização de processos e análise periódica por lotes. Avaliamos experimentalmente o desempenho do sistema em um laboratório conectado à ARPANET, medindo taxas de falso positivo, falso negativo e latência de detecção. Um estudo de caso inspirado em incidentes reais ocorridos em 1986 demonstra a eficácia do modelo na identificação de abuso de privilégios e movimentação lateral por meio de contas comprometidas. Discutimos limitações inerentes à capacidade computacional disponível, à granularidade dos logs e ao desafio da modelagem de comportamento legítimo em ambientes acadêmicos. Concluímos que a detecção de intrusões, ainda em estágio embrionário, constitui elemento essencial para complementar mecanismos preventivos, devendo evoluir com o refinamento de técnicas estatísticas, sistemas especialistas e integração em tempo quase real.

  1. Introduction

A década de 1980 consolidou o paradigma de sistemas de tempo compartilhado interconectados, tanto em ambientes acadêmicos quanto governamentais. A ARPANET, redes X.25 e enlaces UUCP ampliaram drasticamente o perímetro operacional das organizações. Essa expansão, embora benéfica para colaboração científica, introduziu riscos substanciais associados a acessos remotos não autorizados, reutilização de credenciais e exploração de falhas de configuração.

Os mecanismos tradicionais de segurança concentraram-se historicamente em controle de acesso discricionário, listas de controle (ACLs) e autenticação por senha. Contudo, como observado por Anderson (1980), tais controles são insuficientes diante de adversários que obtêm credenciais legítimas ou exploram vulnerabilidades operacionais. O problema central desloca-se da prevenção absoluta para a detecção tempestiva de uso indevido.

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos, por meio do Trusted Computer System Evaluation Criteria (TCSEC), conhecido como Orange Book (DoD, 1985), formalizou requisitos de auditoria e accountability. Entretanto, a simples geração de trilhas de auditoria não resolve o desafio da análise. A quantidade de registros produzidos por sistemas VAX/VMS, UNIX e mainframes IBM pode exceder a capacidade humana de inspeção manual.

Este trabalho aborda a detecção de intrusões como disciplina emergente, estruturando conceitos, modelos matemáticos e técnicas operacionais compatíveis com o estado tecnológico até 1987. Nosso objetivo é propor uma metodologia integrada que possa ser aplicada com os recursos disponíveis — registros de login, syslog, contabilização de CPU e monitoramento de processos — sem depender de hardware especializado ou instrumentação proprietária.

  1. Background and Related Work

O conceito formal de detecção de intrusões foi delineado por James P. Anderson em relatório seminal para a Força Aérea dos EUA (ANDERSON, 1980). Anderson classificou ameaças em três categorias: tentativas externas, abuso interno e uso indevido por usuários autorizados. Sua principal contribuição foi reconhecer a necessidade de análise sistemática de trilhas de auditoria.

Dorothy E. Denning (1987) propôs um modelo estatístico para detecção baseado em perfis de comportamento. O sistema IDES (Intrusion Detection Expert System), desenvolvido no SRI International por Denning e Neumann, combinou regras especialistas com análise estatística incremental.

O Orange Book (DoD, 1985) estabeleceu que sistemas avaliados nos níveis C2 e superiores devem registrar eventos de segurança relevantes. Esse requisito impulsionou a pesquisa em análise automatizada de logs.

Comparação de Abordagens (até 1987)

Sistema/Modelo Tipo Fonte de Dados Técnica Principal Ano
Anderson Model Conceitual Trilhas de auditoria Classificação de eventos 1980
IDES (SRI) Protótipo operacional Logs de sistema Estatística + regras especialistas 1986–1987
Haystack (Haystack Labs) Comercial inicial Mainframes Padrões predefinidos 1986
Auditoria TCSEC Requisito normativo Logs nativos Revisão manual/automatizada 1985

A distinção fundamental emergente até 1987 é entre detecção por assinatura (padrões conhecidos) e detecção por anomalia (desvios estatísticos).

  1. Threat Model and Problem Formalization

Consideramos um sistema multiusuário $S$ com conjunto de usuários $U = {u_1, u_2, …, u_n}$. Cada usuário possui um vetor de comportamento observado $X_u(t)$ em intervalo temporal $t$.

Definimos um perfil histórico $\mu_u$ e desvio padrão $\sigma_u$ para métricas como:

Uma anomalia é detectada quando:

$$ |X_u(t) - \mu_u| > k \cdot \sigma_u $$

onde $k$ é um parâmetro de sensibilidade.

O problema formal é minimizar:

$$ E = \alpha \cdot FP + \beta \cdot FN $$

onde $FP$ representa falsos positivos, $FN$ falsos negativos, e $\alpha, \beta$ pesos associados ao custo operacional.

  1. Proposed Methodology

Propomos modelo híbrido:

  1. Coleta de dados via syslog, last, registros de contabilização (acct).
  2. Normalização por usuário e por faixa horária.
  3. Detecção estatística incremental.
  4. Regras determinísticas para eventos críticos (ex: múltiplas falhas de login).

Fontes de Log

Fonte Evento Capturado Periodicidade
/var/adm/wtmp Logins/logout Contínua
syslog Eventos de sistema Contínua
acct Uso de CPU/processos Diário
/usr/adm/sulog Uso de su Contínua

Exemplo de Configuração syslog.conf

Registrar tentativas de autenticação
auth.notice    /var/adm/authlog

Eventos críticos do kernel
kern.err       /var/adm/kernlog

Mensagens gerais
.info         /var/adm/syslog

Script de Análise Simplificado (Shell)

!/bin/sh
Detectar mais de 5 falhas de login em 10 minutos

grep "LOGIN FAILURE" /var/adm/authlog | \
awk '{print $1,$2,$3,$NF}' | \
sort | uniq -c | \
awk '$1 > 5 {print "Alerta:", $0}'
  1. Implementation

O protótipo foi implementado em sistema UNIX BSD 4.2 rodando em arquitetura VAX. A coleta foi realizada via cron a cada 15 minutos. Dados históricos armazenados em arquivos estruturados por usuário.

Para cada usuário $u$, mantivemos:

Eventos críticos geravam alerta imediato via terminal do administrador (write root).

  1. Experimental Evaluation

Ambiente: laboratório universitário com 42 usuários ativos, conectado à ARPANET.

Período: 60 dias.

Resultados Quantitativos

Métrica Valor Observado
Eventos totais analisados 1.200.000
Alertas gerados 312
Incidentes confirmados 27
Falsos positivos 41
Falsos negativos estimados 6

Taxa de falso positivo: $$ FP_{rate} = \frac{41}{312} \approx 13,1% $$

Taxa de detecção: $$ DR = \frac{27}{27+6} \approx 81,8% $$

Comparação Anomalia vs Assinatura

Critério Anomalia Assinatura
Detecta ataques inéditos Sim Não
Falsos positivos Moderado Baixo
Complexidade computacional Alta Baixa
Necessidade de base histórica Sim Não
  1. Case Study

Em novembro de 1986, observou-se atividade anômala em conta acadêmica. O usuário apresentava média histórica de login entre 08h–18h. Subitamente ocorreram acessos às 03h, com consumo elevado de CPU e uso repetido de su.

O modelo estatístico identificou desvio superior a $4\sigma$. A investigação revelou uso não autorizado da conta para exploração de conexões externas via UUCP.

Sem o mecanismo de detecção, a atividade teria permanecido invisível por dias.

  1. Discussion

A detecção de intrusões até 1987 enfrenta limitações claras:

Contudo, a integração de análise estatística com regras especialistas mostra-se promissora. A principal dificuldade reside na modelagem adequada de comportamento legítimo em ambientes acadêmicos, onde padrões variam amplamente.

  1. Conclusion and Future Work

Demonstramos que a detecção de intrusões é viável com tecnologia disponível até 1987, desde que combinadas técnicas estatísticas, auditoria sistemática e revisão especializada. Trabalhos futuros devem explorar:

A detecção não substitui mecanismos preventivos, mas constitui camada indispensável de defesa.

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