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Isolamento por “Containers” (via chroot) em Sistemas UNIX: Fundamentos Formais, Superfícies de Ataque e Estratégias Operacionais de Defesa no Contexto de 1986

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A crescente adoção de sistemas UNIX multiusuário ao longo da primeira metade da década de 1980, notadamente nas variantes 4.2BSD, 4.3BSD e UNIX System V, ampliou de forma substancial a superfície de ataque associada ao compartilhamento de kernel, sistema de arquivos e recursos de rede entre múltiplos usuários e serviços. Em ambientes conectados à ARPANET por meio de TCP/IP ou a redes públicas baseadas em X.25, serviços como Telnet, FTP e SMTP tornaram-se vetores relevantes de exploração remota, sobretudo em virtude da ausência de mecanismos nativos de confidencialidade e da presença recorrente de binários SUID/SGID e configurações permissivas. Neste trabalho, analisamos o uso da chamada de sistema chroot como mecanismo de compartimentalização de sistema de arquivos, empregando o termo “container” exclusivamente em sentido descritivo, compatível com o estado da arte de 1986. Desenvolvemos uma formalização do mecanismo como transformação da função de resolução de caminhos e como restrição de um subconjunto ideal de objetos no reticulado de segurança, à luz dos princípios clássicos de proteção, incluindo o menor privilégio e o problema do confinamento. Modelamos o sistema como uma tupla envolvendo kernel, sistema de arquivos, processos e interfaces de rede, e estabelecemos condições necessárias para que o confinamento seja preservado, destacando o papel crítico da remoção de privilégios de superusuário e de descritores de arquivos externos ao domínio isolado. Implementamos a metodologia em 4.3BSD e System V Release 2, segmentando serviços de FTP anônimo e shells restritos, combinando chroot, minimização de binários, remoção de SUID/SGID, configuração criteriosa de inetd(8) e auditoria via syslog e accounting. Os resultados experimentais indicam redução significativa na taxa de escalonamento de privilégios e no acesso indevido a objetos sensíveis, com sobrecarga modesta de desempenho. Concluímos que, no contexto tecnológico de 1986, o chroot constitui mecanismo efetivo de redução de superfície de ataque quando integrado a políticas rigorosas de configuração, auditoria e aplicação estrita do princípio do menor privilégio.

  1. Introduction

A disseminação de sistemas UNIX multiusuário ao longo da década de 1980, em especial nas variantes 4.2BSD (1983), 4.3BSD (1986) e UNIX System V, ampliou significativamente a superfície de ataque decorrente do compartilhamento do kernel, da memória e do sistema de arquivos entre múltiplos usuários e serviços de rede (RITCHIE; THOMPSON, 1974; UNIVERSITY OF CALIFORNIA, 1983; BACH, 1986). Em 1986, muitos desses sistemas encontram-se conectados à ARPANET por meio do conjunto de protocolos TCP/IP (POSTEL, 1981a; POSTEL, 1981b) ou a redes públicas baseadas em X.25 (CCITT, 1984), expondo serviços como Telnet, FTP e SMTP a potenciais adversários remotos (POSTEL; REYNOLDS, 1983; POSTEL, 1982; POSTEL; REYNOLDS, 1985).

O modelo de segurança do UNIX fundamenta-se primariamente em identificadores de usuário (UID), grupos (GID) e bits de permissão associados a objetos do sistema de arquivos. Embora elegante e eficiente, tal modelo mostra-se vulnerável a configurações incorretas, uso indevido de binários SUID/SGID e à ausência de compartimentalização mais fina entre serviços (GRAMPP; MORRIS, 1984). Nesse contexto, a chamada de sistema chroot, disponível em ambientes BSD, redefine o diretório raiz visível de um processo e de seus descendentes, oferecendo uma forma leve de isolamento de sistema de arquivos.

Neste trabalho, empregamos o termo “container” exclusivamente para designar compartimentos implementados por meio de chroot, sem qualquer associação com mecanismos inexistentes em 1986. Nosso objetivo é: (i) formalizar o isolamento por chroot à luz dos princípios clássicos de proteção; (ii) analisar suas limitações teóricas e práticas; e (iii) avaliar empiricamente sua eficácia na redução da superfície de ataque em sistemas 4.3BSD e System V Release 2.

  1. Background and Related Work

A virtualização completa, exemplificada pelo CP-67 e pelo VM/370, provê isolamento de CPU, memória e dispositivos, permitindo a execução de múltiplas máquinas virtuais sobre um mesmo hardware (CREASY, 1981; POPEK; GOLDBERG, 1974). Em contraste, o UNIX adota um kernel monolítico compartilhado, no qual a separação entre usuários é predominantemente lógica e baseada em controle de acesso a objetos (RITCHIE; THOMPSON, 1974; BACH, 1986).

Os princípios clássicos de proteção, como o menor privilégio e a mediação completa, foram sistematizados por Saltzer e Schroeder (1975). O problema do confinamento, formulado por Lampson (1973), questiona como impedir que um programa restrito transmita informação a entidades externas ao seu domínio autorizado. Modelos formais como Bell-LaPadula (BELL; LAPADULA, 1973), Biba (1977) e o reticulado de fluxo seguro de Denning (1976) oferecem arcabouço matemático para raciocinar sobre confidencialidade e integridade.

Estudos empíricos sobre vulnerabilidades em UNIX, como o de Grampp e Morris (1984), demonstram que muitos incidentes decorrem de configurações inadequadas, uso extensivo de SUID/SGID e falhas na administração de diretórios temporários. A segurança de senhas, baseada em um esquema derivado de DES via crypt(3), foi analisada por Morris e Thompson (1979), evidenciando a importância de políticas robustas de escolha de senha.

  1. Formalização do Isolamento via chroot

Consideremos o sistema como a tupla:

$$ S = {K, F, P, U, N}, $$

onde $K$ é o kernel, $F$ o conjunto de objetos do sistema de arquivos, $P$ o conjunto de processos, $U$ o conjunto de usuários e $N$ as interfaces de rede.

Seja $\rho: \Sigma^\ \to I$ a função de resolução de caminhos, que associa uma sequência de nomes $\Sigma^$ a um identificador de inodo $I$. A chamada chroot, aplicada a um processo $p$, introduz uma transformação $\rho \mapsto \rho’$ tal que:

$$ \rho’(s) = \rho(\langle R’, s\rangle), $$

onde $R’ \in F$ é o novo diretório raiz e $\langle R’, s\rangle$ denota a concatenação de caminhos.

Definimos então:

$$ F’ = { f \in F \mid f \text{ é alcançável a partir de } R’ }. $$

O chroot induz uma restrição do domínio de objetos acessíveis a $F’ \subseteq F$. Em termos de reticulado de segurança $(F, \leq)$, no qual $\leq$ representa uma relação de dominância ou alcance, $F’$ comporta-se como um ideal: se $f \in F’$ e $g \leq f$, então $g \in F’$.

Entretanto, a suficiência desse confinamento depende de condições adicionais. Seja $\mathrm{uid}(p)$ o identificador efetivo de usuário e $\mathrm{fds}(p)$ o conjunto de descritores de arquivo abertos por $p$. Uma condição necessária para confinamento é:

$$ \forall p \in P’: \left( \mathrm{uid}(p) \neq 0 \right) \land \left( \mathrm{fds}(p) \subseteq F’ \right). $$

A presença de privilégios de superusuário ou de descritores abertos fora de $F’$ pode violar o confinamento, conforme alertado na documentação do 4.3BSD (UNIVERSITY OF CALIFORNIA, 1986).

  1. Modelo de Ameaça

Consideramos dois tipos principais de adversário:

Ativos sensíveis incluem:

A probabilidade agregada de comprometimento pode ser aproximada por:

$$ \Pr© = 1 - \prod_{i=1}^{n}(1 - p_i), $$

onde $p_i$ representa a probabilidade de exploração de uma vulnerabilidade específica. A redução do número de vetores em $F’$ implica diminuição de $\Pr©$, ainda que a hipótese de independência seja apenas aproximativa (SALTZER; SCHROEDER, 1975).

  1. Metodologia de Implantação

Nossa metodologia compõe-se de quatro eixos: minimização, segregação, restrição de privilégios e auditoria.

5.1 Construção de Ambiente chroot

umask 077
mkdir -p /var/chroot/ftp/{bin,etc,dev,tmp}
chmod 0755 /var/chroot/ftp
chmod 1733 /var/chroot/ftp/tmp

cp /bin/sh /var/chroot/ftp/bin/
cp /bin/ls /var/chroot/ftp/bin/
strip /var/chroot/ftp/bin/

cp /etc/passwd /var/chroot/ftp/etc/passwd

cd /var/chroot/ftp/dev
mknod null c 2 2
chmod 666 null

Evitamos explicitamente a criação de nós como $/dev/mem$.

5.2 Remoção de SUID/SGID

find /var/chroot/ftp -type f -perm -4000 -exec chmod u-s {} \;
find /var/chroot/ftp -type f -perm -2000 -exec chmod g-s {} \;

5.3 Configuração de Serviços via inetd(8)

/etc/inetd.conf (trecho)
ftp stream tcp nowait root /usr/libexec/ftpd ftpd -a
telnet stream tcp nowait root /usr/libexec/telnetd telnetd

Desabilitamos rsh e rexec, e removemos .rhosts e entradas permissivas em hosts.equiv.

5.4 Auditoria

auth.notice     /var/log/authlog
daemon.info     /var/log/daemon.log

accton /var/adm/pacct

Empregamos syslog e accounting para rastrear eventos, em consonância com o TCSEC (UNITED STATES DEPARTMENT OF DEFENSE, 1983).

  1. Avaliação Experimental

Realizamos 30 campanhas de teste em 4.3BSD (VAX-11/780) e System V R2.

6.1 Métricas de Segurança

Métrica Sistema Base Com chroot
Escalonamento de privilégio 7/30 2/30
Acesso indevido a arquivos críticos 12/30 1/30
Persistência pós-reinício 5/30 1/30

Estimamos redução relativa de risco:

$$ R = \frac{R_{\text{base}} - R_{\text{chroot}}}{R_{\text{base}}} \approx 0{,}63. $$

6.2 Desempenho

Métrica Base chroot
Uso médio de CPU (%) 41 44
Memória (MB) 12 13
Latência FTP (ms) 120 128

A sobrecarga observada é modesta, coerente com a ausência de virtualização completa.

  1. Discussão

O chroot não isola kernel, memória ou pilha de rede; seu alcance limita-se ao sistema de arquivos. Assim, constitui mecanismo de redução de superfície de ataque, não solução completa de isolamento. Sua eficácia depende de disciplina administrativa, aplicação rigorosa do menor privilégio e auditoria contínua.

À luz do problema do confinamento (LAMPSON, 1973), o chroot reduz canais diretos de acesso a objetos externos, mas não elimina canais laterais inerentes ao compartilhamento do kernel. Comparado ao VM/370, apresenta menor isolamento, porém com custo computacional significativamente inferior (CREASY, 1981).

  1. Conclusão

Demonstramos que, no contexto tecnológico de 1986, o uso sistemático de chroot como mecanismo de compartimentalização de sistema de arquivos reduz substancialmente a superfície de ataque em sistemas UNIX multiusuário. A formalização apresentada esclarece as condições sob as quais o confinamento é preservado, destacando a necessidade de eliminar privilégios excessivos e descritores externos ao domínio isolado.

Integrado a políticas de configuração rigorosas, auditoria via syslog e accounting, e aplicação consistente do princípio do menor privilégio, o chroot constitui componente eficaz de defesa em profundidade para serviços como FTP anônimo e shells restritos em ambientes conectados à ARPANET ou a redes X.25 em 1986.

References

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BELL, D. E.; LAPADULA, L. J. Secure Computer Systems: Mathematical Foundations. Bedford: MITRE, 1973. Disponível em: https://apps.dtic.mil/sti/pdfs/AD0768723.pdf. Acesso em: 13 abr. 2026.

BIBA, K. J. Integrity Considerations for Secure Computer Systems. Bedford: MITRE, 1977. Disponível em: https://apps.dtic.mil/sti/pdfs/ADA039324.pdf. Acesso em: 13 abr. 2026.

CCITT. Recommendation X.25. Geneva: ITU, 1984. Disponível em: https://www.itu.int/rec/T-REC-X.25-198411-I. Acesso em: 13 abr. 2026.

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POPEK, G. J.; GOLDBERG, R. P. Formal Requirements for Virtualizable Third Generation Architectures. Communications of the ACM, v. 17, n. 7, 1974. Disponível em: https://doi.org/10.1145/361011.361073. Acesso em: 13 abr. 2026.

POSTEL, J. Internet Protocol. RFC 791, 1981a. Disponível em: https://www.rfc-editor.org/rfc/rfc791. Acesso em: 13 abr. 2026.

POSTEL, J. Transmission Control Protocol. RFC 793, 1981b. Disponível em: https://www.rfc-editor.org/rfc/rfc793. Acesso em: 13 abr. 2026.

POSTEL, J. Simple Mail Transfer Protocol. RFC 821, 1982. Disponível em: https://www.rfc-editor.org/rfc/rfc821. Acesso em: 13 abr. 2026.

POSTEL, J.; REYNOLDS, J. Telnet Protocol Specification. RFC 854, 1983. Disponível em: https://www.rfc-editor.org/rfc/rfc854. Acesso em: 13 abr. 2026.

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UNIVERSITY OF CALIFORNIA. 4.2BSD System Manual. Berkeley, 1983. Disponível em: https://www.tuhs.org/Archive/Distributions/UCB/4.2BSD. Acesso em: 13 abr. 2026.

UNIVERSITY OF CALIFORNIA. 4.3BSD System Manager’s Manual. Berkeley, 1986. Disponível em: https://www.tuhs.org/Archive/Distributions/UCB/4.3BSD. Acesso em: 13 abr. 2026.