Escola reversa do Crime: o que fazer para não cair nas milhões de fraudes financeiras por aí
Golpistas fazem dois tipos de vítima: as que passam diretamente pelo prejuízo financeiro e as que são utilizadas para a abertura de contas laranjas
O número de golpes digitais têm disparado nos últimos anos. São diversos os tipos aplicados, usando novos métodos e com estelionatários cada vez mais audaciosos. Por trás das fraudes, outros criminosos ficam com a parte mais técnica, como na ‘escola do crime’, que fornecia dados para os golpistas e os ensinava a aplicá-los. Mas com tantas fraudes financeiras sendo aplicadas, como não se tornar uma vítima delas?
A história da "escola do crime" foi contada recentemente no "Fantástico". No site da "Brasil Store", golpistas tinham acesso ao "kit do crime", onde eram vendidas informações sigilosas sobre contas bancárias, cartões clonados e até com apostila sobre como as fraudes deveriam ser praticadas.
Como saber se meu nome está sendo usado como laranja?
Contas bancárias em nome de outras pessoas eram negociadas pela escola como o combo ‘Lara’ — codinome para laranjas, expressão usada para titulares de contas bancárias que são receptoras das transações fraudulentas. No caso do Kit Bico, por exemplo, a vítima comprava em uma loja que não existia ou pagava um falso sequestro e o dinheiro ia direto para a conta laranja.
As instituições financeiras, após constatarem o envolvimento de uma conta bancária em atividade criminosa (envolvidas com crimes patrimoniais no ambiente cibernético), compartilham os dados com a Polícia Federal (PF), explica a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), como em novembro passado, quando a PF deflagrou a operação Não Seja um Laranja 4, com apoio da entidade e seus bancos associados.
A reportagem do Fantástico cita que parte dos donos dessas contas não sabiam do uso das contas como ‘laranjas’, já outra parte integrava o esquema e recebia parte do dinheiro do golpe.
A Febraban aponta que, para saber se foi feito uso indevido de CPF, sem o consentimento do consumidor (como a abertura de contas de forma indevida para ser laranja), o caminho é o Registrato, sistema do Banco Central por meio do qual é possível consultar, de graça, empréstimos, bancos onde tem conta, chaves Pix cadastradas, cheques sem fundos e dados de compra ou venda de moeda estrangeira.
Como não cair nos golpes?
Hiago Kin, presidente da Associação Brasileira de Segurança Cibernética (Abraseci), pontua que não há uma receita infalível para se livrar dos golpes, mas que algumas práticas reduzem esse risco, como ativar autenticação de dois fatores (dando uma camada extra de proteção nos aplicativos) e manter sempre postura vigilante em relação a tudo.
Alguns sinais alertam para os golpes como:
- Urgência excessiva: mensagens que dizem que sua conta será bloqueada, que você ganhou algo ou que há um problema urgente para resolver.
- Erros de português e design duvidoso: muitos golpes apresentam falhas na escrita ou layouts que parecem amadores.
- Links suspeitos: URLs encurtadas ou com pequenas alterações no nome oficial da empresa.
- Solicitação de informações sensíveis: bancos e empresas legítimas nunca pedem senhas ou códigos de segurança por telefone, e-mail ou WhatsApp.
- Remetente desconhecido ou número estranho: mensagens enviadas de e-mails ou números não oficiais são suspeitas.
Segundo o especialista, os golpistas utilizam diversos canais, sendo os mais comuns e-mails de phishing (mensagens que imitam comunicações oficiais para roubar dados), WhatsApp e SMS, perfis falsos em redes sociais, ligações telefônicas, anúncios falsos e sites clonados.
A Febraban aconselha que o consumidor, ao comprar em redes sociais de lojas, verifique se a página tem selo de autenticação, número de seguidores compatíveis, comentários de outros compradores e desconfiar de páginas recém criadas. Veja outras dicas:
- De preferência para o uso de cartão virtual nas compras on-line;
- Use o serviço de avisos por SMS de transações feitas ou outros meios disponibilizados pelos bancos, que informam o valor realizado para cada transação de forma imediata.
- Em pagamentos com Pix ou boletos, confira com atenção todos os dados do pagamento e se a loja escolhida é realmente quem irá receber o dinheiro.
Fui vítima de um golpe, e agora?
A Febraban alerta que, caso o cliente tenha sido vítima de algum crime, deve notificar imediatamente seu banco para que medidas adicionais de segurança sejam adotadas, como bloqueio do app e senha de acesso, e fazer um boletim de ocorrência.
Além disso, Kin pontua que é importante trocar senha de redes sociais, especialmente se a vítima compartilhou dados de acesso, além de monitorar as contas e credenciais e avisar amigos e familiares em caso de o golpe envolver redes sociais ou WhatsApp para que não caiam na mesma fraude.
Conheça os principais golpes financeiros:
Falsa central telefônica/falso funcionário: O golpista se passa por funcionário do banco ou empresa com a qual o cliente tem um relacionamento e solicita dados pessoais e financeiros da vítima, alegando irregularidades na conta. Após isso, orienta a vítima a fazer transferências para regularizar problemas com a conta ou cartão. A Febraban aconselha que o cliente deve sempre verificar a origem das ligações e mensagens recebidas contendo solicitações de dados.
Falso empréstimo consignado: O criminoso se passa por um funcionário de banco oferecendo empréstimos com condições vantajosas ou ainda uma portabilidade, pedindo depósitos antecipados para liberar o dinheiro. Ele também solicita dados pessoais e financeiros do cliente.
Golpe da ajuda em terminais de autoatendimento: O golpista oferece ajuda ao cliente que está com algum problema no caixa eletrônico com o intuito de visualizar a senha e depois trocar o cartão verdadeiro por outro, quando a vítima não estiver prestando atenção. Neste caso, a Febraban recomenda nunca aceitar ajuda de terceiros e procurar um funcionário identificado do banco em caso de problemas.
Falso presente de aniversário/falso brinde: Criminosos, com dados da vítima, oferecem um presente de aniversário e insistem para a entrega pessoal. Durante a entrega, pedem pagamento da taxa de entrega com cartão, usando maquininhas com visor danificado (que impossibilita a visualização do valor digitado na tela) ou desviando a atenção da vítima para visualizar a senha. Em alguns casos, os criminosos pedem uma selfie da vítima para que ela receba o brinde.
Golpe de vendas falsas: Neste golpe, os criminosos criam páginas falsas que simulam e-commerce, enviam promoções inexistentes por e-mails, SMS e mensagens de WhatsApp e investem na criação de perfis falsos de lojas em redes sociais.
Golpe do WhatsApp: O golpista tenta clonar o WhatsApp da vítima, pedindo o código de segurança enviado por SMS informando se tratar de uma atualização ou manutenção. Ele se passa por atendimento ao cliente de empresas que a vítima tem cadastro.
Pescaria digital (phishing): O objetivo é conseguir dados pessoais do usuário. A forma mais comum é por mensagens e e-mails falsos que induzem o usuário a clicar em links suspeitos. Também existem páginas falsas na internet que induzem a pessoa a revelar dados pessoais.
Golpe do falso motoboy: O golpista se passa por funcionário de banco, dizendo que o cartão foi clonado e que o consumidor deve bloqueá-lo, cortar o cartão ao meio e pedir um novo pelo atendimento eletrônico. Além disso, solicita que a senha seja digitada no telefone e que, por segurança, um motoboy irá buscar o cartão para perícia. Mesmo com o cartão cortado, o chip permanece intacto e o golpista consegue realizar transações.
Golpe da troca de cartão: Golpistas se passam de vendedores para visualizar a senha do cartão digitada na maquininha. Depois trocam o cartão na hora de devolvê-lo. Com seu cartão e senha, fazem compras usando o seu dinheiro.
Golpe do falso sequestro: Criminosos simulam, por meio de ligação, sequestro de algum familiar da vítima, exigindo um valor de resgate para libertar o falso sequestrado.
Em todos os casos, a Febraban alerta que bancos não fazem cobranças antecipada de taxas, não solicitam dados pessoais, como nome de familiares ou sigilosos, como senha de cartões, bem como não fazem a troca de cartão. Além disso, a Febraban aconselha os consumidores a sempre desligar ligações suspeitas e retornar para os canais oficiais do banco, tomar cuidado ao clicar em links que chegam por mensagens, não fornecer informações pessoais em cadastros de supostas promoções e sempre checar, após o uso do cartão físico, se o cartão devolvido é realmente o seu.









